Conto do final de semana.

Era noite, das mais escuras. A Lua há muito se escondera atrás das grossas nuvens. O vento uivante ora trazia um suave calor, ora um frio gélido. Não era sequer o rigor do inverno para tanto frio e pensei que fosse coisa de minha cabeça.

Em minha andança de cabeça baixa e mãos no bolso da jaqueta, nos momentos em que o vento gélido e breve cortava as camadas de tecido e então arrepiava toda minha pele, eu me sentia observada. Era quase como um ofegar em minha nuca, mas ao mesmo tempo tão longe que ao me virar, nada encontrava.

Meu coração palpitava no peito, parecia o trotar de um cavalo. Minha respiração se acelerava e eu sentia meu espírito gelar de medo, ao mesmo tempo que meu cérebro dizia-me que nada havia lá. Não se ouvia um passo, apenas o farfalhar das árvores e o uivar tenebroso do vento.

Por um segundo parei, congelada, assim que entrei naquela rua. Eu já havia passado por ela tantas vezes que poderia ir de olhos fechados, mas agora, não tinha coragem de fazê-lo. Sequer conseguira ainda a coragem para dar um passo adiante. Algo em mim mandava ficar parada, outra parte mandava recuar e a pequena parte corajosa, mandava continuar. Por cerca de dois minutos, duelei comigo, com meu inconsciente. Nenhuma palavra proferida pelos lábios, mas uma verdadeira palestra em minha mente. Por fim, a menor parte, mas a mais corajosa venceu e aos poucos, comecei a caminhar.

Lentamente.

Cautelosamente.

O barulho de algo caindo me fez perder uma batida do coração e demorei alguns segundos para retomar a respiração. A mão foi ao peito, em uma tentativa de acalmar o coração. Enquanto isso, meus olhos procuravam a fonte de tal barulho e mesmo com a lente dos óculos meio sujas, distingui a figura de um gato correndo.

Exalei profundamente, aliviada. Eu estava com um medo irracional de um local que eu bem conhecia e pelo qual constantemente passava. Deveria ser alguma preocupação para a qual eu não havia me atentado. Talvez porque fora um dia relativamente complicado e cansativo no trabalho e eu estava descontando em forma de medo daquela pacata ruazinha.

Mais alguns passos e fui me acalmando, mesmo com a sensação estranha. Havia notado as luzes dos postes piscando, mas não era algo anormal. Não seria a primeira vez que eu andaria naquela rua como se estivesse em uma rave em Silent Hill.

Mas foi exatamente no momento que eu havia já me convencido de que era apenas coisa de minha cabeça, que todas as luzes da rua apagaram. Rapidamente olhei ao redor, com o coração pulsando em minha garganta e minhas pernas tremendo, mas não de frio. Foi como um choque que percorreu meu corpo todo, dos pés até a cabeça, que percebi que até as luzes das casas e prédios estavam às escuras.

Com as mãos trêmulas procurei pelo meu celular em minha bolsa. Neste instante, o tilintar dos pequenos objetos encostando entre eles naquele pequeno objeto de couro, pareciam cortantes. O barulho tão conhecido das coisas que eu sempre carregava comigo, se exacerbaram por causa do meu desespero com o meu próprio tremor.

Ofegante de medo, com as duas mãos tentava ligar a lanterna, já que a noite estava um breu sem a Lua. Quando finalmente consegui, virei-me em todas as direções para ter certeza de que estava só. Minha alma congelou quando vi uma sombra se aproximando lentamente pelas minhas costas. Resolvi sair dali e apressei o passo. O barulho do celular denunciou que estava com bateria baixa e eu comecei a praticamente correr.

Repentinamente meus pés ficaram pesados e dar um passo parecia uma briga homérica. Ergui mais o celular, rezando já para todos os santos para que a bateria durasse até sair daquela rua.

Foi como se alguém batesse em meu cotovelo e eu recebesse um choque, porque o celular foi ao chão. Eu não conseguia correr, apenas dar uns passos arrastados, desesperada pelo celular, que naquele momento havia desligado a lanterna. Noite negra, celular preto e eu já pensava em abandona-lo ali e tentar me salvar correndo, mesmo que fosse de algo meramente psicológico.

Suavemente, a Lua abriu brecha entre as nuvens e clareou o chão o suficiente para pegar o celular. Abaixei-me rapidamente, o peguei e quando me levantei, não consegui respirar. Um homem estava à minha frente. A presença dele era tão forte e o medo tão absoluto que eu não possuía força para respirar. Abri suavemente os lábios, tentando puxar o ar e senti o toque gelado de seu indicador sob o meu queixo, de forma gentil, mas firme.

A última coisa que me lembro é de sua voz grave: Olá. Eu estava te esperando.

Aquele sorriso branco…

Seus olhos âmbar…

E tudo ficou escuro novamente….

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